26 de mai. de 2008

Frei Betto fala sobre a saÍda da Ministra Marina Silva


CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 63, frade dominicano, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de, entre outras obras, "A Obra do Artista Uma Visão Holística do Universo". Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

Querida Marina,


Caíste de pé! Tu eras um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua
demissão, os agressores do meio ambiente.

CAÍSTE DE pé! Trazes no sangue a efervescente biodiversidade da floresta
amazônica. Teu coração desenha-se no formato do Acre e em teus ouvidos
ressoa o grito de alerta de Chico Mendes. Corre em tuas veias o curso
caudaloso dos rios ora ameaçados por aqueles que ignoram o teu valor e o
significado de sustentabilidade.

Na Esplanada dos Ministérios, como ministra do Meio Ambiente, tu eras a

Amazônia cabocla, indígena, mulher. Muitas vezes, ao ouvir tua voz clamar


no deserto, me perguntei até quando agüentarias.

Não te merece um governo que se cerca de latifundiários e cúmplices do
massacre de ianomâmis. Não te merecem aqueles que miram impassíveis os
densos rolos de fumaça volatilizando a nossa floresta para abrir espaço ao
gado, à soja, à cana, ao corte irresponsável de madeiras nobres.

Por que foste excluída do Plano Amazônia Sustentável? A quem beneficiará
esse plano, aos ribeirinhos, aos povos indígenas, aos caiçaras, aos
seringueiros ou às mineradoras, às hidrelétricas, às madeireiras e às
empresas do agronegócio? Quantas derrotas amargaste no governo? Lutaste ingloriamente para impedir a importação de pneus usados e a transformação do país em lixeira das nações
metropolitanas; para evitar a aprovação dos transgênicos; para que se
cumprisse a promessa histórica de reforma agrária.

Não te muniram de recursos necessários à execução do Plano de Ação para a
Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, aprovado pelo
governo em 2004.
Entre 1990 e 2006, a área de cultivo de soja na Amazônia se expandiu ao
ritmo médio de 18% ao ano. O rebanho se multiplicou 11% ao ano. Os
satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectaram,
entre agosto e dezembro de 2007, a derrubada de 3.235 km2 de floresta.
É importante salientar que os satélites não contabilizam queimadas, apenas
o corte raso de árvores. Portanto, nem dá para pôr a culpa na prolongada
estiagem do segundo semestre de 2007. Como os satélites só captam cerca de


40% da área devastada, o próprio governo estima que 7.000 km2 tenham sido
desmatados. Mato Grosso é responsável por 53,7% do estrago; o Pará, por 17,8%; e
Rondônia, por 16%. Do total de emissões de carbono do Brasil, 70% resultam
de queimadas na Amazônia.

Quem será punido? Tudo indica que ninguém. A bancada ruralista no Congresso
conta com cerca de 200 parlamentares, um terço dos membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. E, em ano de eleições municipais, não há nenhum indício de que os governos federal e estaduais pretendam infligir qualquer punição aos donos das motosserras com poder de abater árvores e eleger ($) candidatos.

Tu eras, Marina, um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua
demissão, os agressores do meio ambiente, os mesmos que repudiam a proposta
de proibir no Brasil o fabrico de placas de amianto e consideram que "índio
atrapalha o progresso".

Defendeste com ousadia nossas florestas, nossos biomas e nossos
ecossistemas, incomodando quem não raciocina senão em cifrões e lucros, de
costas para os direitos das futuras gerações. Teus passos, Marina, foram
sempre guiados pela ponderação e pela fé. Em teu coração jamais encontrou abrigo a sede de poder, o apego a cargos, a bajulação aos poderosos, e tua bolsa não conhece o dinheiro escuso da corrupção.
Retorna à tua cadeira no Senado Federal. Lembra-te ali de teu colega
Cícero, de quem estás separada por séculos, porém unida pela coerência


ética, a justa indignação e o amor ao bem comum.
Cícero se esforçou para que Catilina admitisse seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.
Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?"
Faz ressoar ali tudo que calaste como ministra.
Não temas, Marina. As gerações futuras haverão de te agradecer e reconhecer o teu inestimável
mérito.

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